Lumina

por Priscyla Gomes

Das muitas narrativas e interpretações que perpassam a história da literatura, da música e das artes visuais, o mito de Orfeu é sem dúvida um dos mais presentes e revisitados. Na tradição clássica esse personagem surge como um exímio poeta e cantor cuja destreza seria o ponto chave de seu encanto.

Os poetas latinos Virgílio e Ovídio dedicaram-se a narrar o périplo de Orfeu pela salvação de sua amada, a ninfa Eurídice. O encontro dos amantes teve um lúgubre desfecho: no dia de seu casamento, a ninfa morre ao receber uma picada de serpente. Atônito, Orfeu lança-se numa busca pela esposa nas mais sombrias regiões. Sua descida às trevas do Hades, o reino dos mortos, resulta no resgate da amada que, por exigência dos deuses, só se daria com o cumprimento de um acordo: Orfeu a levaria consigo desde que não se voltasse para trás a fim de avistá-la.

Os amantes percorrem um território escuro, de difícil transposição, repleto de densa fumaça e no mais profundo silêncio. Em vias de concluir a transição definitiva para o mundo dos vivos, a missão de ambos falha. Diante da súplica de Eurídice por um sinal e uma resposta ao seu amor, Orfeu sucumbe e volta-se para trás. Ao encará-la, perde-a definitivamente.

Os trechos do poema Metamorfoses de Ovídio (8 d.C.) que narram o instante desse triste desfecho referem-se ao termo lumina como a síntese do instante em que os amantes se encaram. Trata-se da luz dos olhos de Orfeu, que no momento em que se volta para Eurídice, emite um raio em sua direção.

No poema, a leitura do mito de Orfeu e Eurídice abre-nos uma possibilidade de interpretação para seus destinos. A fraqueza do herói que não suporta a espera para finalmente estar frente a frente com sua amada teria peso equivalente à impaciência de Eurídice para a confirmação do seu amor. A síntese de lumina traz consigo uma dubiedade: remete ao tão esperado encontro do casal, mas faz desse encontro um destino fatídico, que leva à separação desses corpos.

A presente exposição vale-se da narrativa do mito de Orfeu para conduzir um percurso pela produção da artista paulistana Mariana Palma. Como em uma série de atos, tal qual uma ópera adaptada, o visitante percorre diversos momentos de seu trabalho tendo como nortes suas usuais referências imagéticas e compositivas. Explorando elementos provenientes da botânica, de estampas, organismos marítimos e fragmentos arquitetônicos, Palma aborda a interpenetração de corpos, destaca alternâncias entre instantes de tensão e expansão, e compõe infindáveis universos frutos da exploração de luz e sombra.

Já no primeiro ato – que abre o percurso pelo espaço expositivo – uma série de aquarelas, pinturas e fotografias corrobora a mitologia desses amantes. De caráter claramente labiríntico, a sucessão de salas narra junto à produção da artista desde o enamoramento de Orfeu e Eurídice até o instante em que voltam a se encarar. O encontro, que associa o clímax de uma possível fusão de corpos à desagregação inevitável, é materializado por uma instalação em que frutos de palmeiras, tais quais duas cascatas, vertem para uma bandeja de líquido viscoso. Palma constrói por intermédio do jorro das plantas uma metáfora pujante do possível encontro desses corpos fatidicamente cindidos.

Os demais atos buscam explorar a atmosfera da busca de Orfeu por Eurídice. O reino de Hades e a possibilidade de uma fértil união do casal contrapõem-se em duas salas marcadas por pinturas de diferentes momentos da produção de Palma. O umbral e sua obscuridade, o renascimento e sua fertilidade, são fios que conduzem à aproximação dos trabalhos. Esses dois polos explorados são determinantes para a compreensão da multiplicidade do léxico da artista. Embora a profusão de elementos, aliada à intensidade do uso da cor, salte aos olhos no primeiro fitar das obras de Palma, a sutileza e o rigor com que a artista articula cada camada sucessiva de tinta desvelam um processo lento e meticuloso evidente apenas quando nos debruçamos sobre a superfície planar de suas pinturas.

A noção de lumina de que se vale Ovídio parece permear diversos momentos da trajetória de Palma. A retrospectiva aqui proposta demonstra a recorrência com que a artista refere-se à ideia de integração de partes e de superfícies que se tocam e atritam dando forma a um novo corpo. A complementaridade entre masculino e feminino norteia nosso percurso. Utilizando inúmeros suportes, Palma associa a gramática da pintura barroca a colagens e registros digitais. Tal qual a lumina que define os mais pujantes encontros, nosso deparar com a produção da artista não resulta esquivo. Somos imersos numa poética sedutora e ansiamos pelo desvelar de suas camadas.

 

Priscyla Gomes
curadora